Até às quatro da manhã

Uma noite longa no centro de São Paulo, onde trabalhar é também aprender a resistir e seguir.

Marcus Almeida Machado

1/16/20264 min read

A noite quente do centro de São Paulo convidava os amantes das horas tardias a saírem para a rua em busca de algo que refrescasse a mente e o corpo. Os bares lotados não paravam de receber clientes. Em cada esquina, conversas e mais conversas se misturavam ao barulho de carros, motos e garrafas de cerveja sendo abertas.

Ricardo trabalha como garçom no Bar do Bigode desde que chegou à capital paulista, há sete meses. Além de compositor e excepcional músico, o paranaense de Sarandí sabe tratar cada cliente com cordialidade e cativa a todos com a sua atenção e bom humor.

A noite corria como um carro de Fórmula 1. Entre as idas e vindas do balcão até as mesas, Ricardo percebeu que seu relógio apitou meia-noite. Era hora de tomar seu remédio, pois a febre do dia anterior o havia deixado jogado na cama, na companhia de calafrios que o faziam sonhar com o cuidado de sua família. Viver longe de casa não é fácil. Quando o calo aperta, é você por você mesmo.

Dois jovens jogavam sinuca. A mesa, localizada no centro do bar, servia de passagem para o garçom que ia e vinha entre o balcão e as mesas. Toda vez que passava por ali, conversava rapidamente com a dupla, que duelava entre si a quarta partida consecutiva. O assunto era música.

Ricardo contava sobre a história da sua banda, chamada Cambaia, e sobre um show que fizeram em Maringá (PR), no qual ele subiu no palco vestindo apenas uma sunga, em protesto contra o descaso da organização com os artistas locais.

Até aquele momento nenhum copo e nenhuma garrafa haviam sido quebrados. Ponto positivo para uma noite agradável. Em meio a tantos clientes que entravam e saíam, um senhor, aparentando um nível médio de embriaguez, adentrou o recinto e se sentou perto da mesa de sinuca. Atento, Ricardo se aproximou para atendê-lo.

— Pois não?

— Eu quero uma dose de 51 e uma Original de 600.

— É pra já!

Ricardo caminhou até o balcão, anotou o pedido do cliente, passou pelo caixa, pegou o troco e voltou para a mesa 8. Ao passar pelos jogadores de sinuca, disse que já voltaria para terminar a história.

O senhor observava o movimento do bar e nem percebeu a aproximação do garçom. Ao escutar o barulho em sua mesa, seus olhos brilharam ao ver a cerveja sendo derramada no copo.

Como um ritual, virou a dose de 51 em poucos segundos e estendeu a mão para pegar o troco. A partir daí, seu semblante se transformou e ele gritou:

— Eu te dei 100 reais!

— Não. O senhor me deu 50 reais — contestou Ricardo.

Exaltado e com olhar altivo, o senhor se levantou e, na frente de todos os clientes, assumiu o papel da polícia.

— Você me roubou. Eu vou revistar você agora mesmo! — e segurou o braço do garçom.

Os olhos de Ricardo se arregalaram. Seu semblante misturava incredulidade diante da cena constrangedora e indignação com a ousadia de um cliente embriagado.

Sem hesitar, respondeu:

— Espera aí. Primeiro tira a mão de mim. Você me deu 50 reais e eu te devolvi o troco.

— Não deve ser a primeira vez que você faz isso, né? Mas agora você se ferrou. Seu ladrãozinho de merda!

A vontade de reagir de maneira violenta tomou conta do garçom. Ao lembrar que seu único apoio verdadeiro estava longe dali, em outro estado do país, respirou fundo, olhou para o teto e disse:

— Você quer me revistar… então faremos um trato. Você me revista, mas, se não achar o seu dinheiro, eu vou dar um soco na sua cara.

A mão de Ricardo, estendida em direção ao acusador, esperava atentamente o fechamento do acordo.

Receoso, o senhor começou a gritar, para que o bar inteiro ouvisse, que Ricardo o estava ameaçando.

— Esse rapaz me roubou e agora quer me agredir!

— Você está distorcendo a situação. Você acabou de me chamar de ladrão e eu que estou te ameaçando? — respondeu o garçom. — Tá vendo dois caras ali do outro lado da rua? São meus patrões. Se você quiser, vai lá e fala com eles.

Fez uma breve pausa antes de concluir:

— Mas, se quiser fechar o acordo e tentar achar os seus 50 reais, é só apertar a minha mão!

Pensativo e com todos os olhares do bar em direção a ele, o senhor se sentou. Ricardo, então, foi atender outro cliente que pedia mais cerveja.

Os amigos da sinuca, revoltados com a acusação luciferiana que tomava o recinto, queriam entrar na briga. Já haviam esquecido a história da sunga.

Enquanto Ricardo e seus amigos conversavam sobre toda aquela situação constrangedora, o senhor deu um grito, levantou as duas mãos e, em uma delas, mostrou os 100 reais. Aconteceu que ele procurou o dinheiro em seus próprios bolsos e encontrou a nota da discórdia.

Os clientes começaram a vaiar o senhor. Envergonhado, com o semblante murcho, caminhou até Ricardo e implorou desculpas:

— Eu errei… me perdoa. Toma esses 100 reais pra você.

— Eu trabalho e sou honesto. Não preciso do seu dinheiro. A partir de agora o outro garçom vai te atender. Não quero papo com você — respondeu Ricardo.

O dono da nota de 100 voltou ao seu lugar e evitava olhar para as pessoas ao seu redor. Chamou o outro atendente e pediu mais uma dose de 51. Dessa vez, pagou com o troco do pedido anterior.

O bar retomava seu ritmo habitual, e o garçom respirou fundo, sentindo o peso silencioso daquela noite que ainda demoraria para acabar.

As pessoas que observavam a confusão retornaram aos seus bate-papos. Clientes novos entraram, outros saíram. Notas de 20, 50 e 100 circularam de mão em mão até às quatro da manhã. Cervejas continuavam sendo abertas. Ricardo se mantinha focado, atendendo com seu jeito acolhedor e carregando um cofre dentro do coração. O amanhã ainda exigiria muito dele.

Foto: Thiago Cosme Morales | @cliquenervoso