Gravação da Ruína
Uma simples gravação de vídeo sai do controle à medida que erros, acidentes e tensões transformam o ambiente em um verdadeiro caos.
Marcus Almeida Machado
6/23/20261 min read


O cinegrafista montou o cenário na sala. Uma cadeira de madeira com encosto rachado sobre um tapete de sisal cinza e branco. Luz lateral em um tripé do lado direito e um rebatedor do lado esquerdo. Ao fundo, paredes beges, decoradas com plantas e cestos.
O apresentador decora o roteiro. A fala é mansa e o olhar também. O cinegrafista pensa, reflete e decide reformular o cenário. Aponta uma estante de livros com bonecos do Chaves do Oito.
- Sai daí. Vem pra cá!
Cadeira para um lado, luz para o outro. O apresentador derruba o rebatedor. O rebatedor cai em cima de uma planta. O chão se enche de terra. O cinegrafista se arrepende por um momento, mas continua o processo.
- Foda-se. Vai ali e fala o que você tem que falar.
O clima pesa. O apresentador pisa na terra e suja o tapete. A planta, caída, agoniza. O roteiro que estava na ponta da língua, desaparece da memória. Caos mental.
Três, dois, um… começa!
- Calma, esqueci o roteiro.
- Caralho! Aí você me atrasa!
Pausa. O apresentador busca água na cozinha. Retorna. Grita uma frase qualquer e senta na cadeira. Silencio. A esposa do cinegrafista entra na casa e vê o vaso quebrado no chão. Terra por toda a sala. Tapete sujo.
Ninguém abre a boca. Ela vai para o quarto. O cinegrafista, seu esposo, vai atrás. Gritos ecoam na casa. Os cachorros começam a latir. A câmera grava a cara assustada do apresentador. Pânico.
Uma ideia surge na mente do apresentador. Ele se levanta. Vai desligar a câmera e sair da casa. Tropeça no fio. O tripé cai. A câmera cai no chão e se despedaça. As mãos sobem à cabeça.
A porta se abre. O cinegrafista vê a câmera no chão. Ódio no olhar.
- Desculpa, fui desligar e tropecei.
A esposa aparece. Puxa o gatilho. Um corpo cai em cima do sofá. O sangue mancha o papel do roteiro. O cinegrafista pega uma vassoura.
Gravação cancelada.
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