Naquele sofá
Na final da Copa de 94, entre pênaltis e rojões, ficou uma das memórias mais fortes de uma infância…
Marcus Almeida Machado
4/8/20262 min read


Quando a partida terminou zero a zero e foi para os pênaltis, corri até a sala para assistir ao duelo ao lado da minha vó Ana. Ela tinha um lugar especial naquele sofá, onde passava horas em frente à TV e, naquele 17 de julho de 1994, não foi diferente. Sentada, com o queixo apoiado na mão sobre a bengala, ela, como eu, aguardava ansiosamente o tetra da seleção brasileira.
Enquanto os jogadores se preparavam para bater os pênaltis, em meio aos rojões, dona Ana começou a me falar sobre o Mundial de 70, quando conquistamos o tricampeonato. Suas lembranças passavam por Mogi das Cruzes, onde viveu por alguns anos, assistindo aos jogos na TV da casa de uma vizinha. Foi ali que viu Pelé e companhia encantarem o planeta com aquela que, para muitos, foi a maior seleção de todos os tempos.
Minha avó nasceu em São João Marcos, uma cidade fluminense que foi inundada pela Represa de Ribeirão das Lajes. Cresceu em um orfanato em Mangaratiba, onde viveu momentos difíceis. A cidade desapareceu sob a água, levando consigo casas, histórias e vidas.
A companhia elétrica Light foi responsável pela desocupação da cidade, pela retirada dos moradores e pela demolição das casas. Meu avô Afonso, enfermeiro, foi até a região para trabalhar no combate a uma epidemia da época. Foi ali que conheceu minha avó, se casou com ela e a levou para viver na Vila Matilde, na zona leste de São Paulo.
A vó Ana era fascinante. Botafoguense e fã de Garrincha, dizia que também guardava um espaço para o Tricolor do Morumbi. Seu sotaque era diferente do nosso, e sua generosidade, imensa. Era uma mulher de atitude, amável e firme no cuidado com os filhos e netos, principalmente com meu primo Fernando, que era seu neto mais filho do que neto.
Cresci naquele morro do Monte Serrat, brincando e correndo pra lá e pra cá. No carnaval, eu emprestava os vestidos da vó, fazia desenhos com tinta guache, colocava uma máscara de monstro e saía pelas ruas com meu primo Fernando, o Dodô. Pela avenida República, assustávamos quem passava pela grande festa do Vai-quem-quer.
Na varanda da casa, minha vó sempre brigava porque jogávamos o famoso “fut-área”. Eram duelos intensos, de habilidade e raça. Ninguém queria perder e, se para isso o cano do tanque precisasse ser quebrado, não pensávamos duas vezes.
A casa da vó também respirava festa. Minha tia Ná sempre fazia grandes eventos regados a churrasco, cerveja e refrigerante. Nos Natais, o Papai Noel descia do seu trenó e nos deixava inúmeros presentes. Eu e meus primos ficávamos fascinados, olhando para o céu à espera do bom velhinho.
Infelizmente, em 1999, minha avó partiu e tudo tomou outra forma. Nunca mais tive a alegria de passar o Natal com toda a família reunida, pois acredito que ela era como o sol e nós, os planetas, orbitávamos ao seu redor. Hoje, essas lembranças permanecem difusas, misturadas à imaginação, num ponto em que já não sei distinguir o que é verdade e o que é invenção.
A memória mais forte que eu tenho é da final entre Brasil e Itália. Enquanto Baggio caminhava em direção ao gol de Taffarel, enganchei meus braços aos dela e escondi meu rosto em seu ombro. Não lembro em qual canal assistíamos. Talvez fosse o SBT, não sei. Só sei que o craque italiano isolou a bola e levantamos a taça.
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