O dia em que ninguém ouviu o gongo

Duas lutas que se encontram, uma no ringue e outra na vida, onde nem todos os limites são respeitados.

Marcus Almeida Machado

3/29/20263 min read

O bom menino desejava se apresentar ao mundo, porém o doutor o impedia com o argumento de que ainda não era o momento. Oito meses ainda é prematuro, pode acontecer algo grave caso nasça antes dos nove meses; essas eram algumas alegações do médico de Inez, de 19 anos. A gestante sentia que algo estranho acontecia em sua gestação, mas confiou no profissional que a acompanhava.

Naquela noite, sozinha em casa, pois seu marido havia viajado a trabalho, a solidão e a preocupação fizeram companhia à gestante. Após um dia cheio de dor e mal-estar, ela, merecidamente, descansou em seu sofá e ligou a TV. Na telinha passava boxe: Mike Tyson lutaria contra Evander Holyfield. Então, a programação da noite seria boxe, pipoca e guaraná.

O MGM Grand Garden Arena, em Las Vegas, encontrava-se lotado. Tyson entrou no ringue com calção preto e bata branca, larga e solta, de decote em V, como se já estivesse vestido para a cerimônia da violência. Holyfield entrou com calção e robe, ambos de cor branca, com detalhes roxos escuros. A luta prometia, e até o bebê se agitou dentro da barriga quando o gongo anunciou o início da batalha.

Inez, por um momento, esqueceu-se das dores e aproveitou aquele instante. Cléber Machado, o narrador, enaltecia a confiança que cada lutador aparentava ter em si mesmo, enquanto a futura mamãe ainda desconfiava das palavras do médico, que batia o pé em não analisar mais detalhadamente o caso dela.

Mike Tyson partiu para cima. Ele buscava vencer a luta a qualquer custo, pois era uma revanche e havia perdido a última. Holyfield se defendia e não caía nas provocações de seu adversário. O árbitro Mills Lane sabia que teria bastante trabalho para controlar o espetáculo.

Quando o primeiro round acabou, Inez se levantou para pegar mais pipoca. Ao retornar da cozinha, sentiu uma dor insuportável na barriga e caiu no sofá. Respirou fundo e esticou a mão até o telefone para chamar um táxi. Cada minuto de espera parecia uma eternidade.

Enquanto os lutadores retornavam para o duelo do segundo assalto, Inez suava e tentava não se desesperar. No ringue, o supercílio de Tyson sangrava sem parar. Na arquibancada da arena, fãs gritavam eufóricos; na sala da casa, só se ouvia a voz de Cléber Machado e as orações da gestante.

Pouco antes de o gongo anunciar o fim do segundo round, o táxi buzinou em frente à casa. Inez se levantou com cuidado e foi direto para a porta. O taxista a ajudou a entrar no carro e partiram rumo ao hospital. No sofá, o pote de pipoca ficou na companhia do copo com guaraná e da locução do narrador.

O taxista chegou gritando por socorro. Logo vieram os enfermeiros com uma maca e a levaram para uma sala de emergência. Com as mãos na cabeça e desesperado, o motorista pegou um copo d’água na recepção e se sentou nas cadeiras de espera. No alto da parede, uma TV transmitia a luta para os que ali estavam, porém sem volume.

O terceiro round começou mais agitado e o público foi à loucura com os ganchos e cruzados que saíam aos montes. No leito do hospital, Inez começava a sentir as primeiras contrações, mas o médico afirmava que era coisa da cabeça dela e não faria um parto com oito meses.

Aos 41 segundos do fim do terceiro assalto, já em trabalho de parto, a gestante teve eclâmpsia, desmaiou e, pela primeira vez, o médico entendeu que ela não estava mentindo. Todos os profissionais correram para fazer uma cesariana e evitar o pior.

No mesmo momento, em Las Vegas, Tyson mordia a orelha de Holyfield, que pulava de dor no meio do ringue. Atônito, o mundo não acreditava que um profissional poderia ser tão estúpido e agir com tamanha covardia.

Os médicos tentavam reanimar Inez e, devido à gravidade da situação, faltou oxigênio para o bebê, que morreu diante dos olhos, sempre incrédulos, da equipe de saúde. Segundos depois, a criança retornou à vida, mas com sequelas.

Devido à falta de oxigênio, houve hemiparesia, que afetou drasticamente a coordenação motora do lado direito do recém-nascido, ou seja, o braço e a perna. Inez se recuperou do desmaio e, com dificuldade, viu seu filho sendo levado para uma incubadora. Ela estava exausta, confusa e temerosa.

No ringue, Tyson foi desclassificado diante dos olhos de milhões de telespectadores. Na sala de cirurgia, não houve desclassificação, pois não havia árbitro. Ninguém se responsabilizou pela incompetência que cometeram com mãe e filho. Talvez, uma luta de boxe tenha mais compromisso com a integridade de um ser humano do que aqueles profissionais que acompanharam a gestação da jovem Inez.